Quem conhece o produtor vai dominar o agro

Cooperativas, revendas, bancos, seguradoras e indústrias estão sentados sobre o ativo mais estratégico da nova agricultura: a história econômica e operacional de cada produtor.

Pense num produtor de soja e milho com 600 hectares no oeste do Paraná. Numa única safra, ele compra semente na revenda da cidade, compra fertilizante e entrega parte do grão na cooperativa, contrata o custeio no banco, emite uma Cédula de Produto Rural para a trading que antecipou parte do dinheiro, faz o seguro da lavoura, vende o grão e emite nota fiscal de cada carga que sai da fazenda.

Cada um desses parceiros sabe alguma coisa sobre ele. O banco sabe quanto ele deve e se paga em dia. A cooperativa sabe quanto ele entregou e em que talhão plantou. A revenda sabe o que ele compra, de quem e com que prazo. A seguradora sabe onde choveu pouco. A indústria de insumos sabe quanto do seu produto chegou até ele — em geral, pelo relatório do distribuidor.

Nenhum deles vê o filme inteiro. E o próprio produtor, que protagoniza todas as cenas, costuma guardar o roteiro em pastas, planilhas, conversas de WhatsApp e na memória.

Durante décadas, quem tinha terra tinha poder. Depois, quem tinha capital ganhou poder. Na próxima fase do agronegócio, poder terá quem conhecer melhor o produtor.

Não é uma aposta sobre tecnologia. É uma constatação sobre como o dinheiro e os insumos já circulam no campo, e sobre quem decide, a cada safra, quem recebe crédito, com que preço e com que prazo.

Cada um conhece um pedaço

Quando se pergunta quem conhece melhor o produtor, cada elo da cadeia tende a responder que é ele mesmo. E cada um tem razão, mas só sobre a parte que enxerga.

O banco tem a visão mais profunda da vida financeira: histórico de crédito rural, atrasos, renegociações, garantias, movimentação da conta. Mas sabe pouco do que acontece dentro da porteira. Conhece o custeio contratado, não a produtividade do talhão.

A cooperativa, quando o produtor é cooperado ativo, tem talvez o retrato mais completo: entrega de produção, compra de insumos, assistência técnica, às vezes o crédito e o seguro. Conhece o produtor pelo nome e pela família. Mas conhece o que passou por ela. A soja entregue à trading vizinha e o adubo comprado na revenda do outro lado da rodovia ficam fora do retrato.

A revenda conhece o comportamento de compra com um detalhe que ninguém mais tem: qual produto, que dose, que marca, quando, com que prazo e quanto de desconto foi preciso para fechar. Conhece, sobretudo, a relação — o agrônomo da revenda é, muitas vezes, a pessoa com quem o produtor mais conversa sobre a lavoura.

A indústria de insumos sabe muito sobre a agronomia do próprio produto e pouco sobre quem o usa. Na maior parte dos casos, o produtor é para ela uma linha num relatório de vendas do distribuidor.

A trading conhece volumes, contratos e a pontualidade da entrega. A seguradora conhece área, cultura, histórico de sinistros e o clima de cada região.

E o produtor? É o único que tem todas as peças. Só que espalhadas, sem formato e, com frequência, sem registro.

Painel 01, quem sabe o quê sobre o produtor. Leitura qualitativa do caso típico, por tipo de informação: crédito e pagamento, compras de insumo, produção e entrega, área e mapa, custo por hectare, clima e sinistro. O banco conhece bem o crédito e em parte as compras e a área. A cooperativa conhece bem a produção entregue e em parte todo o resto, mas só o que passa por ela. A revenda conhece bem as compras e em parte o crédito. A indústria de insumos conhece em parte as compras, via distribuidor. A trading conhece bem a produção e a entrega e em parte o crédito. A seguradora conhece bem a área e o clima e em parte a produção. O produtor tem as peças, espalhadas: conhece bem crédito, compras, produção e área, e em parte custos e risco. Ninguém vê o filme inteiro; quem combinar as peças responde antes quanto o produtor vai precisar, pagar e comprar.

Gráfico 1 — O que cada elo da cadeia conhece do produtor, por tipo de informação: crédito, compras, produção, área, custos e risco. Fonte: elaboração Vector Consulting.

2,56 mioperações de crédito rural na safra 2025/26BCB, Sicor
R$ 576 biem CPRs no estoque, em 371 mil cédulasMAPA, jun/2026
254 miconsentimentos ativos no Open FinanceOpen Finance Brasil, ago/2026
22,2%dos produtores usam aplicativo de gestão da propriedadeEmbrapa/Sebrae/Inpe, 2020

O que acontece quando alguém consegue combinar essas peças? A resposta não é abstrata. Quem juntar o histórico de crédito do banco, as compras da revenda, as entregas da cooperativa, a área do mapa e o clima do seguro passa a responder, com antecedência, as perguntas que valem dinheiro no agro: quanto esse produtor vai precisar de crédito na próxima safra, quanto ele consegue pagar, o que vai comprar, quando vai comprar e qual a chance de ele trocar de fornecedor.

Essa combinação muda o jogo comercial. Quem responde primeiro oferece antes, com o preço certo, e com risco menor. Quem responde depois disputa o que sobrou.

Os rastros que o produtor deixa

O produtor brasileiro pode até não se considerar digital. Mas ele deixa rastros digitais em quase toda a cadeia, e boa parte deles já está em sistemas oficiais.

O mais volumoso é o crédito. Na safra 2025/26, o Sistema de Operações do Crédito Rural e do Proagro, o Sicor, do Banco Central, registrou 2.555.345 operações de crédito rural, somando R$ 352,6 bilhões, segundo a soma, feita pela Vector, dos dados da Matriz de Dados do Crédito Rural. Cada operação traz o valor, a finalidade, a cultura, o município e, muitas vezes, a localização da lavoura financiada.

O segundo é a Cédula de Produto Rural. Em junho de 2026, havia 371 mil CPRs em estoque, somando R$ 576,42 bilhões, segundo o Boletim de Finanças Privadas do Agro do Ministério da Agricultura. Para as emissões a partir de 2024, a regra do Conselho Monetário Nacional não traz mais faixa de dispensa de registro.

O terceiro é a nota fiscal. Desde 5 de janeiro de 2026, pelo Ajuste SINIEF 27/24, todo produtor rural emite nota fiscal eletrônica, e a nota em papel está vedada. Cada venda de grão, cada remessa para armazém, cada transferência de animal passa a existir num banco de dados.

Há outros: o Cadastro Ambiental Rural, com o mapa do imóvel; a apólice do seguro rural; a Guia de Trânsito Animal; o receituário agronômico; o romaneio da balança da cooperativa; os dados de telemetria das máquinas; o histórico de compras no aplicativo da revenda. Cada um desses registros foi criado para cumprir uma obrigação ou uma rotina. Nenhum foi criado para contar a história do produtor.

Painel 02, os rastros digitais do produtor. Crédito rural na safra 2025/26: 2,56 milhões de operações registradas no Sicor, do Banco Central, somando R$ 352,6 bilhões. Cédulas de Produto Rural em junho de 2026: 371 mil em estoque, somando R$ 576,42 bilhões. Nota fiscal eletrônica obrigatória para todo produtor rural desde 5 de janeiro de 2026. Open Finance: 254 milhões de consentimentos ativos na semana de 28 de agosto de 2026, na contagem de quem recebe os dados, ou 264 milhões na de quem envia. Em destaque, a Resolução BCB 204, de março de 2022: o produtor pode autorizar terceiros a consultar o próprio histórico de crédito rural. Outros rastros, sem base nacional pública: CAR, seguro rural, GTA, receituário, romaneio, telemetria e aplicativos de revenda.

Gráfico 2 — Registros digitais que o produtor já gera: operações de crédito rural, CPRs, nota fiscal eletrônica e consentimentos do Open Finance. Fontes: Banco Central, Matriz de Dados do Crédito Rural (Sicor), safra 2025/26; MAPA, Boletim de Finanças Privadas do Agro (jul/2026); CONFAZ, Ajuste SINIEF 27/24; Open Finance Brasil, Dashboard do Cidadão (semana de 28/08/2026); BCB, Resolução 204/2022.

Esses rastros podem virar base de conhecimento? Podem, e a regulação já abriu a porta. Em março de 2022, a Resolução BCB nº 204 passou a permitir que o produtor compartilhe com terceiros, com seu consentimento, os dados das suas operações registradas no Sicor. É o histórico de crédito rural do produtor, portável, a pedido dele.

No sistema financeiro como um todo, o hábito de autorizar o compartilhamento já pegou. O Open Finance Brasil registrava 254,15 milhões de consentimentos ativos na semana de 28 de agosto de 2026, na contagem das instituições que recebem os dados — eram 223,48 milhões no fim de junho. O Cadastro Positivo, segundo a associação dos bureaus de crédito, reunia 167 milhões de cadastros em agosto de 2024.

No agro, a iniciativa específica ainda está na fila. O Projeto de Lei 3.123/2025, apelidado de “Open Finance do agro”, propõe um sistema nacional de gestão de risco de crédito rural. Apresentado em junho de 2025, aguardava a designação de relator na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara em maio de 2026.

Os rastros existem. O que falta é quem os junte, com a autorização de quem os produziu.

De economia de ativos a economia de informação

O agro sempre foi uma economia de ativos. Terra, máquina, armazém, rebanho. E a terra segue se valorizando: o preço médio do hectare de terra agrícola nos 17 estados pesquisados pela Scot Consultoria passou de R$ 14.818 em julho de 2019 para R$ 31.610 em julho de 2024, alta de 113%. Mesmo descontada a inflação de 33,63% do período, a alta real passa de 59%.

Mas terra valorizada não responde às perguntas que o crédito faz. Diz quanto vale a garantia, não se o produtor vai pagar. E o crédito rural está mudando de forma, em direção a mais decisões, cada uma menor.

Pela Matriz de Dados do Crédito Rural, a safra 2025/26 teve 9,8% mais operações que a anterior e 8% menos valor contratado, em valores nominais. O valor médio por operação caiu de cerca de R$ 165 mil para R$ 138 mil. São 2,56 milhões de decisões de crédito numa única safra. Nenhuma instituição toma essa quantidade de decisões olhando matrícula de imóvel por matrícula de imóvel.

Painel 03, da terra ao dado, em valores nominais. Preço médio do hectare em 17 estados, pela Scot Consultoria: terra agrícola de R$ 14.818 em julho de 2019 para R$ 31.610 em julho de 2024, alta de 113%; pastagem de R$ 8.267 para R$ 17.887, alta de 116%; IPCA do período de 33,63%. Crédito rural contratado no Sicor, valor médio por operação: R$ 176,8 mil em 2023/24, com 2.385.858 operações e R$ 421,9 bilhões; R$ 164,7 mil em 2024/25, com 2.327.265 operações e R$ 383,3 bilhões; R$ 138,0 mil em 2025/26, com 2.555.345 operações e R$ 352,6 bilhões. Em 2025/26, mais 9,8% de operações, menos 8% de valor e menos 16% no valor médio. A terra dá a garantia; quem decide o crédito precisa de informação: foram 2,56 milhões de decisões numa safra.

Gráfico 3 — Preço médio da terra agrícola e da pastagem entre 2019 e 2024, e crédito rural contratado por safra: número de operações e valor médio. Fontes: Scot Consultoria, levantamento de preços de terras (17 estados, valores nominais); Banco Central, Matriz de Dados do Crédito Rural (Sicor), safras 2023/24 a 2025/26.

Ao mesmo tempo, o crédito privado ganhou peso. A CPR, com R$ 576 bilhões em estoque, é o instrumento de quem financia o produtor fora das linhas controladas: tradings, revendas, indústrias, fundos e os próprios bancos. Quem empresta com recurso próprio precisa conhecer quem toma. Não por acaso, o agro assistiu nos últimos anos a crises de grandes revendas: a AgroGalaxy pediu recuperação judicial em setembro de 2024, e a Lavoro, maior revenda do país, protocolou em junho de 2025 um plano de recuperação extrajudicial cobrindo cerca de R$ 2,5 bilhões devidos a fornecedores. As causas foram várias — juros altos, preços em queda, safras frustradas —, mas as duas crises mostraram quanto custa vender a prazo sem medir bem o risco de quem compra.

É isso que significa passar de uma economia de ativos para uma economia de informação. A terra continua sendo o lastro. Mas quem decide para onde vai o dinheiro, o insumo e o grão é quem sabe mais sobre a capacidade de cada produtor de produzir, pagar e cumprir.

Do CRM à inteligência sobre o produtor

Boa parte das cooperativas e revendas médias já tem um CRM, o sistema de gestão de relacionamento com o cliente. Ele registra a visita do técnico, a proposta enviada, o pedido fechado, a reclamação. É um avanço sobre o caderno do vendedor. Mas é, essencialmente, um arquivo do que já aconteceu.

A próxima etapa é o que se pode chamar de inteligência sobre o produtor — em inglês, o mercado tem usado farmer intelligence. A diferença não está no software. Está na pergunta que o sistema responde.

O CRM responde “o que fizemos com esse produtor”. A inteligência sobre o produtor responde “o que esse produtor vai fazer”.

Quanto vai plantar de cada cultura, quando vai comprar o fertilizante, se a margem dele comporta o pacote que o vendedor quer oferecer, se o risco de crédito dele subiu depois da quebra de safra, se ele está comprando menos com a gente porque encontrou preço melhor ou porque reduziu a área.

Painel 04, do CRM à inteligência sobre o produtor. O CRM registra o relacionamento; a inteligência prevê o próximo movimento. Pergunta: o que fizemos com este produtor, contra o que este produtor vai fazer. Fonte: o que a equipe comercial digita, contra notas, pedidos, entregas, títulos e crédito, mais clima, mapa, preço e Sicor autorizado. Horizonte: a safra que passou, contra a próxima safra. Uso: agenda e memória do vendedor, contra limite de crédito, prazo, estoque na loja, rota do técnico e momento da oferta. Pré-requisito: disciplina de registro, contra um só cadastro por produtor e por propriedade. Não começa com inteligência artificial; começa sabendo que o João do CRM e o J. B. Silva da nota são a mesma pessoa.

Gráfico 4 — O que muda do CRM tradicional para a inteligência sobre o produtor: pergunta, fonte de dados, horizonte e uso. Fonte: elaboração Vector Consulting.

Três coisas separam uma da outra.

A primeira é a fonte. O CRM vive do que a equipe comercial digita. A inteligência sobre o produtor combina dados transacionais que já existem na empresa — notas, pedidos, entregas, títulos, crédito — com dados externos, como clima, mapa, preço de mercado e, com autorização, o histórico de crédito do Sicor.

A segunda é o horizonte. O CRM olha para trás. A inteligência olha para a próxima safra.

A terceira é o uso. O CRM serve ao vendedor. A inteligência serve à decisão: limite de crédito, prazo, estoque na loja, rota do técnico, momento da oferta.

Nada disso exige inteligência artificial sofisticada para começar. Exige, antes, algo mais difícil: saber que o João do CRM, o João Batista do sistema financeiro e o J. B. Silva da nota fiscal são a mesma pessoa, com a mesma fazenda.

Quem deveria ter essa inteligência

Se o dado é do produtor, a inteligência também deveria ser dele. Esse é o princípio mais aceito no mundo. Nos Estados Unidos, os princípios de privacidade e segurança para dados agrícolas, estabelecidos em 2014 pela American Farm Bureau Federation com entidades do setor e empresas de tecnologia, dizem que o produtor deve ser dono da informação gerada na sua operação, e que a coleta depende de consentimento explícito. No Brasil, não há código setorial equivalente. O que há é a LGPD, a Resolução BCB 204 e o projeto de lei ainda parado na Câmara.

Na prática, porém, o produtor médio não vai montar sozinho um sistema de inteligência sobre a própria vida econômica. Alguém vai fazer isso por ele, ou com ele. E aí a pergunta muda: quem, na cadeia, tem legitimidade, proximidade e capacidade para transformar esses dados em vantagem para os dois lados?

O banco tem capacidade técnica e dado financeiro, mas o produtor tende a desconfiar de entregar a quem cobra os juros a informação que define os juros. A indústria de insumos tem escala e dinheiro, mas pouca relação direta. A trading tem o dado da comercialização, mas uma relação pontual, safra a safra. A agtech tem a tecnologia — o Radar Agtech Brasil 2025 mapeou 2.075 startups do agro, 156 delas plataformas de integração de sistemas e dados —, mas raramente tem a confiança construída em décadas.

Quem tem proximidade, frequência de contato e confiança são a cooperativa e a revenda. É por isso que a disputa pela inteligência sobre o produtor vai passar, em boa parte, por elas.

Cooperativas e revendas no novo jogo

As cooperativas agropecuárias brasileiras são 1.254, com 1.132.303 cooperados e R$ 487,33 bilhões em ingressos em 2025, segundo o Anuário do Cooperativismo do Sistema OCB. A distribuição de insumos, representada pela Andav, faturou R$ 171 bilhões em 2025, dos quais R$ 105 bilhões em insumos, segundo a pesquisa nacional da entidade com o Cepea. Pela declaração do presidente da Andav, os distribuidores respondem por 47% de todo o insumo que chega ao produtor.

Painel 05, quem está perto do produtor. Cooperativas agropecuárias em 2025: 1.254 cooperativas, 1.132.303 cooperados e R$ 487,33 bilhões em ingressos. Distribuição de insumos em 2025: faturamento de R$ 171 bilhões, dos quais R$ 105 bilhões em insumos; segundo a Andav, 47% do insumo que chega ao produtor passa pelos distribuidores. AgroGalaxy em recuperação judicial desde setembro de 2024; Lavoro com recuperação extrajudicial de cerca de R$ 2,5 bilhões com fornecedores em junho de 2025. Quem dá orientação técnica, em estabelecimentos, no Censo 2017: governo 388.077, 7,6% do total; própria 316.394, 6,2%; cooperativas 251.520, 5,0%, em destaque; integradoras 134.950, 2,7%. 79,8% dos 5,07 milhões de estabelecimentos não recebiam orientação técnica.

Gráfico 5 — Cooperativas e revendas: tamanho, alcance e presença técnica junto ao produtor. Fontes: Sistema OCB, AnuárioCoop 2026; Andav e Cepea-Esalq/USP, 11ª Pesquisa Nacional da Distribuição (ago/2026); IBGE, Censo Agropecuário 2017, tabela 6779.

A cooperativa tem uma vantagem que nenhum outro elo tem: o produtor é dono dela. A pergunta “quem deveria possuir a inteligência sobre o produtor” tem, na cooperativa, uma resposta natural — o próprio produtor, coletivamente. Uma cooperativa que organiza o histórico econômico e operacional dos cooperados, devolve a cada um uma visão da própria fazenda e usa o conjunto para negociar insumo, crédito e seguro em melhores condições não está vendendo o dado do produtor. Está trabalhando para ele.

Para isso, a cooperativa precisa evoluir em três frentes. Primeiro, parar de enxergar o cooperado por departamento — o do grão, o da loja, o do crédito, o da assistência técnica — e passar a enxergá-lo inteiro. Segundo, tratar o dado como serviço ao cooperado, não só como controle interno: o produtor que recebe da cooperativa o seu custo por hectare comparado ao dos vizinhos tem motivo para concentrar ali suas operações. Terceiro, pedir autorização e usar os instrumentos que já existem, como o compartilhamento de dados do Sicor, para completar o retrato.

A presença técnica também conta. No Censo Agropecuário de 2017, só 20,2% dos 5,07 milhões de estabelecimentos recebiam orientação técnica de alguém. As cooperativas atendiam 251.520 deles, e as integradoras, 134.950. São números antigos, mas mostram quem, além do governo, estava dentro da porteira.

E as revendas? Há espaço, e ele é maior do que parece, mas não para todas do mesmo jeito. A revenda regional que conhece cada cliente e tem agrônomo de campo continua tendo o ativo mais difícil de copiar: a relação. O espaço dela está nos nichos em que conhecimento local vale mais que escala. Hortifrúti, café, culturas especiais e produtores médios que a cooperativa não alcança e que a grande plataforma trata como número. Também está na assistência técnica que vira serviço pago, e na intermediação de crédito com dados melhores que os de um banco distante.

O que perde espaço é a revenda que só vende produto a prazo, sem medir o risco de quem compra.

A infraestrutura que falta

Se a inteligência sobre o produtor é o ativo, qual deveria ser a infraestrutura que a sustenta? Na nossa leitura, ela tem seis camadas, e o Brasil está em estágios muito diferentes em cada uma.

A primeira é a identidade. Saber que o produtor do crédito, o da nota, o do CAR e o do cadastro da cooperativa são a mesma pessoa, com a mesma fazenda, os mesmos talhões e as mesmas matrículas. Parece básico. Na maioria das empresas do agro, não está resolvido nem dentro de casa.

A segunda é o consentimento e a portabilidade. É a camada em que o país mais avançou: há a Resolução BCB 204 para o crédito rural, o Open Finance com centenas de milhões de consentimentos ativos e a LGPD como regra geral. O que falta é trazer essa lógica para os dados de produção, de compras e de entrega.

A terceira são os padrões de dados e a integração. Talhão, safra, cultura, produto, dose, custo: cada sistema chama de um jeito. Sem vocabulário comum, cada integração vira projeto sob medida.

A quarta é o histórico econômico da fazenda. Não apenas o que o produtor comprou ou devolveu, mas quanto custou produzir cada saca, safra após safra. Essa é a camada mais valiosa e a mais rara.

A quinta são os modelos: previsão de demanda, de risco, de produtividade e de comportamento de compra.

A sexta é a devolução. O produtor precisa receber de volta, em forma útil, o que o sistema aprendeu com os dados dele. Sem essa camada, ninguém autoriza o compartilhamento por muito tempo.

Painel 06, a infraestrutura que falta, estágio no Brasil na leitura da Vector. 01 Identidade, o mesmo produtor e a mesma fazenda em todos os sistemas: incipiente, com cadastros duplicados até dentro da mesma empresa. 02 Consentimento e portabilidade, em destaque: avançada, com Resolução BCB 204/2022, Open Finance, LGPD e o PL 3.123/2025 ainda sem relator. 03 Padrões e integração: incipiente, cada sistema usa o seu vocabulário. 04 Histórico econômico da fazenda, custo por saca safra após safra: incipiente. 05 Modelos de previsão: parcial, crédito e seguro modelam risco, demanda e compra pouco. 06 Devolução ao produtor: incipiente, exceção e não regra. A distância não é tecnológica, é de organização.

Gráfico 6 — As seis camadas da infraestrutura de inteligência econômica do produtor e o estágio de cada uma no Brasil. Fontes: elaboração Vector Consulting, com base em BCB, Resolução 204/2022; Open Finance Brasil, Dashboard do Cidadão (ago/2026); Câmara dos Deputados, PL 3.123/2025.

O quanto estamos longe desse cenário? Na regulação e no consentimento, menos do que parece. Na identidade, nos padrões e no histórico econômico, bastante. E a distância não é tecnológica. As ferramentas existem e são acessíveis. A distância é de organização: decidir quem é o dono do cadastro, qual é o código do produtor que vale para todos os sistemas, quem cuida da qualidade do dado e o que a empresa vai devolver ao produtor em troca da autorização.

O risco de o produtor ficar para trás

Existe o risco de o produtor virar o elo menos digitalizado da própria cadeia, com banco, trading, indústria e cooperativa trocando dados entre si sobre ele enquanto ele continua anotando a safra no caderno. Os números mostram um quadro mais nuançado do que o estereótipo.

O produtor usa tecnologia. Na pesquisa online da Embrapa com o Sebrae e o Inpe, de 2020, 84,1% dos produtores disseram usar ao menos uma tecnologia digital no processo produtivo, e 70,4% usavam a internet em atividades da produção. Na pesquisa da McKinsey com 750 produtores brasileiros, publicada em janeiro de 2025, o pagamento digital chegou a 54%.

Mas o uso para gestão é bem menor. Na mesma pesquisa da Embrapa, só 22,2% usavam aplicativos de gestão da propriedade. E, na McKinsey, o uso de canais digitais para comprar insumos estagnou em cerca de 40% depois da pandemia.

Painel 07, o produtor é digital, a gestão ainda não. Pesquisa online Embrapa, Sebrae e Inpe de 2020: 84,1% usam ao menos uma tecnologia digital; 70,4% usam internet em atividades da produção; 57,5% usam redes sociais; 22,2% usam aplicativos de gestão da propriedade, em destaque. McKinsey, 750 produtores, 2024: pagamento digital 54%; compras de insumo por canal digital cerca de 40%, estagnadas depois da pandemia. Barreiras na pesquisa da Embrapa: custo de máquinas, equipamentos e apps, 67,1%; falta ou falha de conexão, 47,8%.

Gráfico 7 — Uso de tecnologia digital pelo produtor, por finalidade. Fontes: Embrapa, Sebrae e Inpe, pesquisa Agricultura Digital no Brasil (2020, amostra online), divulgada pela Agência Sebrae; McKinsey, Why Brazilian farmers are doubling down on productivity (jan/2025).

Há também barreiras de estrutura. Pela PNAD Contínua de 2025, do IBGE, 88,0% dos domicílios rurais têm internet — o fosso para a cidade quase fechou. Mas o sinal de celular funciona em só 68,0% dos domicílios rurais, contra 96,1% dos urbanos. Na lavoura, longe da sede, a cobertura é pior. Na pesquisa da Embrapa, 47,8% apontaram a falta de conexão como barreira, atrás apenas do custo, com 67,1%.

E há a questão de geração. No Censo Agropecuário de 2017, 46,6% dos produtores tinham 55 anos ou mais, e só 11,3% tinham menos de 35. A sucessão familiar, que está acontecendo agora em milhares de propriedades, é também uma transição digital. O filho que volta da faculdade para a fazenda costuma chegar com a planilha de custos que o pai nunca fez.

Painel 08, conexão e geração no campo. IBGE, PNAD Contínua TIC 2025: têm internet 95,8% dos domicílios urbanos e 88,0% dos rurais; o sinal de celular funciona em 96,1% dos domicílios urbanos e em 68,0% dos rurais, em destaque. Idade do produtor no Censo Agro 2017: menos de 35 anos, 11,3%; 35 a 44, 17,9%; 45 a 54, 24,2%; 55 a 64, 23,5%; 65 ou mais, 23,2%; 46,6% têm 55 anos ou mais. O fosso da internet em casa quase fechou; o do sinal de celular, não.

Gráfico 8 — Acesso à internet e sinal de celular nos domicílios rurais e urbanos, e idade dos produtores. Fontes: IBGE, PNAD Contínua TIC 2025 (jul/2026); IBGE, Censo Agropecuário 2017.

A resposta, portanto, é: depende de quem se mexer. O produtor não é avesso à tecnologia. Ele usa o que resolve um problema dele. Se a cadeia digitalizar tudo ao redor dele e só extrair dados, ele será o elo menos digitalizado — e o menos informado sobre a própria operação. Se alguém lhe devolver informação útil em troca dos dados, ele se digitaliza rápido, porque passa a ter motivo.

O que fazer agora

A inteligência sobre o produtor não começa com um projeto de inteligência artificial. Começa com arrumação e com uma decisão de negócio: o que a empresa quer saber sobre o produtor, para decidir o quê.

Para cooperativas, o movimento é unificar a visão do cooperado e devolver a ele informação sobre a própria fazenda. Para revendas, é transformar a relação do agrônomo em registro estruturado e usar esse registro na decisão de crédito. Para bancos e seguradoras, é trocar parte da análise de garantia por análise de histórico, com consentimento. Para a indústria, é parar de depender só do relatório do distribuidor para saber quem é o seu cliente final.

Nos próximos 90 dias

  1. Conte quantos cadastros diferentes existem para o mesmo produtor nos seus sistemas — ERP, CRM, crédito, balança, assistência técnica. Esse número mede a distância até a primeira camada.
  2. Escolha um código único de produtor e de propriedade e defina quem é o dono desse cadastro na empresa.
  3. Liste os dados que você já tem e não usa para decidir: notas, pedidos, entregas, títulos, histórico de atraso, visitas técnicas. Em geral, a maior parte do valor está aí.
  4. Estude o compartilhamento de dados do Sicor previsto na Resolução BCB 204. Para quem concede crédito ou vende a prazo, é o atalho mais barato para completar o retrato financeiro do produtor, sempre com autorização dele.
  5. Defina o que o produtor recebe em troca: um relatório de custo por hectare, uma comparação com a média da região, um limite de crédito mais rápido. Sem contrapartida clara, o consentimento não se sustenta.

A terra continua sendo o chão de tudo. Mas, na próxima safra e nas seguintes, quem souber mais sobre o produtor vai chegar antes com o crédito, o insumo e a proposta certa.

A próxima fronteira agrícola não está no mapa. Está no histórico de cada produtor.

Fontes
  • Ag Data Transparent / American Farm Bureau Federation. Privacy and Security Principles for Farm Data, 2014, atualizados em 2024.
  • AgroGalaxy. Fato Relevante sobre o pedido de recuperação judicial, 18/09/2024.
  • ANBC — Associação Nacional dos Bureaus de Crédito. Cinco anos do Cadastro Positivo, 08/08/2024.
  • Andav e Cepea-Esalq/USP. 11ª Pesquisa Nacional da Distribuição, notícia de 13/08/2026.
  • Banco Central do Brasil. Matriz de Dados do Crédito Rural (Sicor), safras 2023/24 a 2025/26, extração de 23/09/2026 (somas por ano-safra, valores nominais).
  • Banco Central do Brasil. Resolução BCB nº 204, de 22/03/2022.
  • Câmara dos Deputados. Projeto de Lei 3.123/2025, ficha de tramitação.
  • CMN/Banco Central. Resolução CMN 4.870/2020, na redação da Resolução CMN 4.927/2021.
  • CONFAZ. Ajuste SINIEF 27/24, de 06/12/2024.
  • Embrapa, Sebrae e Inpe. Pesquisa Agricultura Digital no Brasil, 2020, divulgada pela Agência Sebrae em 10/08/2020.
  • Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens. Radar Agtech Brasil 2025.
  • IBGE. Censo Agropecuário 2017, resultados definitivos (tabelas 6755, 6779, 6781, 6962 e resultados de produtores).
  • IBGE. PNAD Contínua — Tecnologia da Informação e Comunicação 2025, divulgada em 02/07/2026.
  • Lavoro Limited. Form 6-K sobre o plano de recuperação extrajudicial, jun/2025.
  • MAPA. Boletim de Finanças Privadas do Agro, jul/2026.
  • McKinsey & Company. Why Brazilian farmers are doubling down on productivity, 08/01/2025.
  • Open Finance Brasil. Dashboard do Cidadão, consentimentos ativos, semana de 28/08/2026.
  • Scot Consultoria. Levantamento de preços de terras, jul/2019 a jul/2024, publicado em 16/01/2025.
  • Sistema OCB. AnuárioCoop 2026, ramo agropecuário.