As (novas) Armadilhas do RPA

Cinco anos depois, o robô de software virou um mercado de US$ 3,6 bilhões e ganhou um sucessor, o agente de IA. A armadilha principal continua a mesma: automatizar o que nem deveria existir.

Um robô de software da Cargill já desativou 268 mil cadastros de fornecedores inativos. O número está no estudo de caso que a Automation Anywhere, fabricante do robô, publicou em 2023 como exemplo de sucesso. Antes dele, um robô de uso único tinha limpado mais de 150 mil registros. O robô que ficou no lugar roda continuamente, porque os cadastros inativos continuam aparecendo.

Lido com os olhos de quem vende automação, é um caso de produtividade: trabalho que ninguém queria fazer, feito sem erro e sem hora extra. Lido com os olhos de quem desenha processo, é uma pergunta sem resposta. Por que a empresa continua produzindo fornecedores que precisam ser desativados? O robô resolve o sintoma com eficiência exemplar. A causa continua lá, trabalhando em outro turno.

Em junho de 2021, publicamos aqui um artigo curto com uma tese simples: a principal armadilha do RPA (Robotic Process Automation) é automatizar uma atividade que nem deveria ser feita. Como o robô de software se implanta em semanas, falta tempo para perguntar se a tarefa agrega valor, e a ineficiência passa a rodar mais rápido. Esta é a versão revisada daquele texto. Os números mudaram muito. A tese, não.

Cinco anos, mercado 2,5 vezes maior

Em 2019, os fornecedores de RPA faturaram US$ 1,41 bilhão com software no mundo, segundo o Gartner. Em 2024, US$ 3,6 bilhões: 2,5 vezes mais. A curva, porém, está perdendo inclinação. A receita cresceu 22,1% em 2023 e 14,5% em 2024, e o próprio Gartner atribui a desaceleração à chegada da IA generativa, das ferramentas que operam o computador como uma pessoa e da automação agêntica. UiPath, Microsoft e Automation Anywhere lideram o mercado.

Painel 01, um mercado 2,5 vezes maior. Receita mundial de software de RPA, em US$ bilhões: 1,41 em 2019; 1,58 em 2020; sem dado realizado publicado para 2021; 2,6 em 2022; 3,2 em 2023, alta de 22,1%; 3,6 em 2024, alta de 14,5%. Para o Gartner, IA generativa e automação agêntica desaceleraram o RPA em 2024. A licença é a menor parte: a Forrester projetou mercado de US$ 22 bilhões em 2025 com serviços, dos quais o software seria de US$ 6 bilhões a 6,5 bilhões, segundo relatos divergentes da imprensa.

Gráfico 1 — Receita mundial de software de RPA, 2019 a 2024, e variação anual. Fontes: Gartner, press release de 21/09/2020 (2019 e 2020); Gartner, Market Share Analysis: Robotic Process Automation, Worldwide, 2023 e 2024.

US$ 3,6 biReceita mundial de software de RPA em 2024Gartner
3%das empresas levaram o RPA a 50 robôs ou maisDeloitte
+ de 40%dos projetos de IA agêntica serão cancelados até 2027 (previsão)Gartner, jun/2025
371 milCPRs em estoque, somando R$ 576,42 biMAPA, jun/2026

O dado de faturamento mostra só a licença, e a licença é a menor parte da conta. Quando a Forrester projetou um mercado de US$ 22 bilhões para 2025, somando software e serviços, a imprensa que teve acesso ao relatório reportou que o software seria algo entre US$ 6 bilhões e US$ 6,5 bilhões — os dois números circulam, citados por iTnews e TechCrunch. Em qualquer das versões, para cada real gasto em licença gastam-se mais de dois em implantação, sustentação e consultoria. Quem avalia um produto de RPA pelo preço da licença está olhando para menos de um terço da despesa.

Esse era o segundo alerta do artigo de 2021: acertar a especificação é difícil, porque a gama de funcionalidades e de preços varia muito entre produtos. Continua valendo, com um agravante. Hoje quase todo fornecedor diz vender “agentes”, e parte deles vende o mesmo robô de antes com outro nome. Voltamos a isso adiante.

Tarefa não é processo

O RPA é muito bom numa coisa: repetir, na tela, o que uma pessoa faz com teclado e mouse. Preencher uma guia de recolhimento, copiar dados de um e-mail para o ERP, baixar um extrato, conferir uma nota. É automação de tarefa.

Processo é outra coisa. Um processo de negócio tem começo, fim, donos, exceções, prazos e decisões no meio do caminho. Quem orquestra isso — quem decide que a tarefa B só começa quando a A termina, e que a exceção vai para a pessoa certa — são outras ferramentas: os BPMS (Business Process Management Systems), as integrações por API entre sistemas e, cada vez mais, o próprio ERP.

A confusão entre os dois custa caro. A pesquisa global da Deloitte sobre RPA, de 2017, resumiu o problema numa frase: a complexidade do processo determina a complexidade do robô. Processo sem padrão gera robô cheio de exceções, e robô cheio de exceções quebra toda vez que uma tela muda, um campo é renomeado ou um fornecedor manda o PDF num formato diferente.

Poucos chegam à escala

A mesma pesquisa da Deloitte, com mais de 400 empresas, mostrou a distância entre a expectativa e o resultado. Só 3% tinham conseguido levar o RPA a 50 robôs ou mais. Para 63%, o prazo de implantação não saiu como o esperado; para 37%, o custo. O retorno do investimento, que as empresas esperavam em 9,3 meses, veio em 11,5 — dois meses e pouco a mais, 24% acima do previsto.

Painel 02, o que se esperava e o que veio, pesquisa global de RPA da Deloitte com mais de 400 empresas. Só 3% levaram o RPA a 50 robôs ou mais. Payback esperado de 9,3 meses e realizado de 11,5 meses, atraso de 24%. A expectativa de prazo não foi atendida em 63% das empresas e a de custo em 37%. O principal desafio foi a padronização dos processos. A complexidade do processo determina a complexidade do robô.

Gráfico 2 — O que as empresas esperavam do RPA e o que obtiveram: payback, prazo, custo e escala. Fonte: Deloitte, The robots are ready. Are you? (pesquisa global de RPA, 2017).

Os anos seguintes não mudaram o quadro de forma radical. Em 2019, a HFS Research ouviu 590 líderes de grandes empresas e concluiu que só 13% dos adotantes de RPA tinham escalado e industrializado a automação. Em 2020, a Deloitte encontrou os mesmos 13% com 51 automações ou mais — o número coincide, mas as definições são diferentes, e um não confirma o outro. Em 2022, entre as empresas ainda em fase piloto, o prazo de retorno esperado tinha subido de 16 para 22 meses. E, entre as barreiras apontadas, 52% dos executivos citaram a incapacidade de mudar os processos de negócio.

Esse último número é o centro da questão.

Metade das empresas diz que o obstáculo não é o robô: é o processo que não muda.

O custo de manter o robô vivo aparece em outra pesquisa, da Pega, com 509 decisores, de 2019. Nela, 87% relataram falhas de robôs em alguma medida, 41% disseram que a gestão dos robôs consumia mais recursos do que o previsto e só 39% dos robôs entraram em produção no prazo. A Pega vende software de BPM, uma alternativa ao RPA, e o leitor deve pesar isso. Mas o padrão é o mesmo da Deloitte, que não vende nem um nem outro. A mesma Pega cita uma estimativa da EY, muito repetida no mercado, de que 30% a 50% dos projetos iniciais de RPA fracassam; o relatório original da EY não está mais disponível para conferência.

Painel 03, o custo de manter o robô. Pesquisa Pega de 2019 com 509 decisores: 87% relatam falhas de robôs, 41% dizem que a gestão dos robôs custa mais que o previsto, só 39% dos robôs entram no prazo e a média é de 18 meses até a produção. Pesquisa Deloitte de 2022 com 479 executivos: barreiras para escalar são dificuldade de integrar soluções, 62%, e incapacidade de mudar os processos, 52%; o payback esperado por quem está no piloto subiu de 16 para 22 meses. Estimativa da EY citada pela Pega: 30% a 50% dos projetos iniciais de RPA fracassam.

Gráfico 3 — Falhas, esforço de sustentação e barreiras de escala do RPA. Fontes: Pega, pesquisa com 509 decisores (set/2019); Deloitte, Automation with intelligence (2022).

A experiência do Sicredi, uma das primeiras cooperativas brasileiras a adotar RPA, em 2018, ilustra o aprendizado. Num webinar de 2020, relatado pelo IBEF-SP, o representante da cooperativa contou que o Sicredi já tinha 343 processos automatizados e mais de 70% da conciliação fiscal feita por robôs. E admitiu: “erramos nos primeiros processos, pois pegamos procedimentos de média e alta complexidade”. A recomendação dele foi começar pequeno.

A armadilha principal: automatizar o que nem deveria existir

Em 1990, Michael Hammer publicou na Harvard Business Review um artigo cujo título virou palavra de ordem: “Don’t Automate, Obliterate” — não automatize, elimine. O argumento era que a informática vinha sendo usada para fazer mais depressa o trabalho que já existia, em vez de perguntar se aquele trabalho precisava existir. Uma frase atribuída a Bill Gates diz o mesmo de outro jeito: automação aplicada a uma operação ineficiente amplia a ineficiência.

O RPA tornou essa armadilha mais barata e mais rápida de cair. Um projeto de BPMS ou de integração obriga a desenhar o processo, porque sem desenho não há fluxo para orquestrar. O robô de software, não. Ele imita a pessoa na tela, e por isso pode ser construído sem que ninguém pergunte por que a pessoa estava fazendo aquilo.

Na prática da Vector, a pergunta costuma ter três respostas possíveis, e o robô é a terceira:

A atividade não deveria existir. É o caso de relatórios que ninguém lê, conferências duplicadas, aprovações que nunca reprovam, cadastros que se acumulam porque ninguém os encerra na origem. Eliminar custa menos que automatizar e não gera sustentação.

A atividade existe porque dois sistemas não conversam. É a redigitação: o dado sai da balança, é digitado no ERP, volta para uma planilha e segue para a trading. Aqui o robô funciona, mas é uma fita adesiva. A solução definitiva é a integração, e o robô deve ter data para sair.

A atividade agrega valor, é estável e repetitiva. Aqui o RPA é a ferramenta certa, e o retorno aparece.

O problema é que, vistas de fora, as três têm a mesma cara: alguém sentado diante de uma tela fazendo sempre a mesma coisa.

O agro entrou na fila

O agronegócio chegou ao RPA mais tarde que bancos e seguradoras, e chegou pelo back-office. Os casos publicados mostram o mesmo padrão de outros setores, com números expressivos.

Painel 04, o robô no agronegócio. Usina Coruripe: cerca de 16 mil horas por ano economizadas com 33 projetos de RPA; o robô lê o peso no ticket da balança e emite a nota. Copersucar: trâmite fiscal no porto de Santos de 6 horas para 10 minutos com 25 robôs, somando ajustes no ERP ao RPA. UISA: de 30 para 45 caminhões carregados por dia sem pessoal adicional, 43 processos automatizados. Sicoob: abertura de conta de 2 dias para 30 a 40 minutos, com 14 robôs.

Gráfico 4 — Casos publicados de RPA em empresas do agronegócio e do crédito cooperativo. Fontes: Coruripe/AutomationEdge, citado por Inforchannel (jan/2026); Copersucar, citado por JornalCana (fev/2022); UISA, citado por Baguete (out/2021); IBM, estudo de caso Sicoob (dez/2021).

Na Usina Coruripe, com operações em Alagoas e Minas Gerais, 33 projetos de RPA economizam cerca de 16 mil horas por ano, segundo o relato publicado pelo Inforchannel em janeiro de 2026. (A Visão Agro, no mesmo dia, falou em “mais de 1,3 mil horas por mês” no título e em “mais de mil horas mensais” no texto.) Um dos robôs lê o peso de saída no ticket de pesagem, fecha o transporte e emite a nota fiscal. Outro, quando o caminhão de cana interestadual chega, encerra o manifesto de carga e manda a nota de retorno ao motorista por WhatsApp.

Na Copersucar, 25 robôs participam do trâmite fiscal no porto de Santos, que caiu de seis horas para dez minutos, segundo o JornalCana. O detalhe que importa: o ganho veio de ajustes no ERP somados ao RPA, e a própria empresa não separa quanto é de cada um. Foi processo e robô, nessa ordem.

Na UISA, usina de açúcar e etanol, 43 processos foram automatizados em RH, finanças, logística e áreas agrícolas até 2021, e o carregamento diário passou de 30 para 45 caminhões sem pessoal adicional, segundo relato publicado pela Baguete. No crédito cooperativo, o Sicoob pôs 14 robôs para trabalhar e reduziu a abertura de conta de dois dias para 30 a 40 minutos, segundo estudo de caso da IBM.

Todos esses resultados são reais e merecem crédito. Mas vale aplicar a eles as três perguntas.

O robô da Coruripe que lê o ticket de pesagem e emite a nota existe porque a balança e o sistema fiscal não estão integrados — ou estavam, mas não do jeito que a operação precisava. É o segundo caso: fita adesiva útil, que resolve hoje o que uma integração resolveria para sempre. Na Coopercitrus, outro caso publicado, um robô vigia a caixa de e-mail, captura os boletos recebidos em PDF e uma IA lê os dados. Funciona. Mas o sistema bancário brasileiro já oferece o DDA, o Débito Direto Autorizado, que mostra ao pagador, no próprio banco, os boletos emitidos contra o seu CNPJ — sem PDF e sem e-mail. A pergunta anterior ao robô é por que esse dado ainda chega por e-mail.

Não é crítica às empresas, que não divulgaram o raciocínio completo e podem ter feito exatamente essa conta. É o exercício que todo projeto de automação no agro deveria fazer antes de começar.

O calendário que vai lotar o back-office do agro

A pressa, no agro, tem data marcada. Três mudanças regulatórias recentes aumentam o volume de documentos que o produtor, a cooperativa e a trading precisam emitir, registrar e conferir.

Painel 05, o calendário que lota o back-office. Registro de CPR: dispensa abaixo de R$ 1 milhão em 2021, de R$ 250 mil em 2022, de R$ 50 mil em 2023, e sem faixa de dispensa na resolução a partir de 2024. NF-e do produtor rural: 3 de fevereiro de 2025 para operações interestaduais e receita acima de R$ 360 mil; 5 de janeiro de 2026 para todos os produtores, com nota em papel vedada. EUDR, regulamento europeu antidesmatamento: 30 de dezembro de 2026 para empresas em geral, em destaque como próximo prazo, e 30 de junho de 2027 para a maioria dos micro e pequenos.

Gráfico 5 — Obrigações que aumentam o volume de documentos no agronegócio: NF-e do produtor rural, registro de CPR e regulamento europeu antidesmatamento (EUDR). Fontes: CONFAZ, Ajuste SINIEF 27/24; CMN, Resolução 4.870/2020, redação da Resolução 4.927/2021; Comissão Europeia, COM(2026) 191.

A primeira é a nota fiscal eletrônica do produtor rural. Pelo Ajuste SINIEF 27/24, a NF-e passou a ser obrigatória em 3 de fevereiro de 2025 nas operações interestaduais e para o produtor com receita bruta acima de R$ 360 mil em 2023 ou 2024. Desde 5 de janeiro de 2026, vale para todos os demais produtores, e a nota em papel está vedada.

A segunda é o registro da Cédula de Produto Rural. A Resolução CMN 4.870 dispensou o registro das CPRs de menor valor por um período de transição: abaixo de R$ 1 milhão em 2021, de R$ 250 mil em 2022 e de R$ 50 mil em 2023. Para emissões a partir de 2024, a resolução não traz faixa de dispensa. O estoque de CPRs chegou a R$ 576,42 bilhões em junho de 2026, em 371 mil cédulas, segundo o Boletim de Finanças Privadas do Agro do Ministério da Agricultura. Os registros da safra 2025/26 somaram R$ 377,81 bilhões, 8% a menos que na safra anterior — ainda assim, um volume que ninguém confere à mão sem erro.

A terceira vem de fora. O regulamento europeu contra o desmatamento, o EUDR, foi adiado duas vezes e passa a valer em 30 de dezembro de 2026 para as empresas em geral e em 30 de junho de 2027 para a maioria dos micro e pequenos operadores. Em maio de 2026, a Comissão Europeia informou que não pretende propor novas alterações ao texto. Quem exporta soja, café, carne ou madeira para a Europa vai precisar provar a origem de cada lote.

Somem-se a isso as 1.254 cooperativas agropecuárias do país, com 1.132.303 cooperados e R$ 487,33 bilhões em ingressos em 2025, segundo o Anuário do Cooperativismo do Sistema OCB. Cada cooperado é uma fonte de notas, contratos, romaneios e cédulas que precisam entrar no sistema da cooperativa.

Painel 06, o tamanho do back-office do agro. 371 mil Cédulas de Produto Rural em estoque em junho de 2026, somando R$ 576,42 bilhões, com valor médio de R$ 1,55 milhão por cédula. Registros de CPR por safra: R$ 410,22 bilhões em 2024/25 e R$ 377,81 bilhões em 2025/26, queda de 8%. Cooperativas agropecuárias em 2025: 1.254 cooperativas, 1.132.303 cooperados e R$ 487,33 bilhões em ingressos.

Gráfico 6 — Volume de documentos e de relacionamentos no agronegócio: CPRs registradas e cooperativas agropecuárias. Fontes: MAPA, Boletim de Finanças Privadas do Agro (jul/2026), com dados de B3, CERC e CRDC; Sistema OCB, AnuárioCoop 2026.

A tentação é previsível: para cada nova obrigação, um novo robô copiando dados de um sistema para outro. Em dois anos, a empresa tem trinta robôs, cada um sustentando uma costura entre sistemas que ninguém redesenhou, e uma equipe dedicada a consertá-los quando a Receita estadual muda um leiaute ou a registradora muda uma tela.

A obrigação regulatória é o momento em que o processo vai mudar de qualquer jeito. É a melhor hora para redesenhá-lo, não para congelá-lo num robô.

A nova onda repete a armadilha

Em 2026, o assunto nas diretorias não é mais RPA. É agente de IA: software que não só repete passos na tela, mas interpreta um pedido, decide o que fazer e usa outros sistemas para fazer.

A promessa é maior, e a armadilha também. Em junho de 2025, o Gartner previu que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027, por custos crescentes, valor de negócio pouco claro ou controle de risco inadequado. No mesmo comunicado, a consultoria cunhou o termo “agent washing”: o rebatismo de produtos existentes — assistentes de IA, chatbots e, textualmente, RPA — como agentes, sem capacidade agêntica real. Pelas contas do Gartner, só cerca de 130 dos milhares de fornecedores que dizem vender agentes vendem de fato. E a recomendação da analista responsável foi repensar os fluxos de trabalho desde o início, em vez de encaixar agentes nos fluxos atuais.

Painel 07, agentes de IA, a mesma armadilha. O Gartner prevê que mais de 40% dos projetos de IA agêntica serão cancelados até o fim de 2027 e estima que só cerca de 130 dos milhares de fornecedores de agentes são reais; o resto é agent washing, inclusive RPA rebatizado. Celonis, 1.649 executivos: 82% acham que a IA não dará retorno se não entender o negócio; 76% dizem que os processos atuais atrasam a empresa. Gartner 2026: 17% já implantaram agentes de IA e mais de 60% esperam implantar em dois anos. Cetic.br: 17% das empresas brasileiras usaram IA em 2025, contra 13% em 2024; das que usam, 68% aplicam em automação de processos.

Gráfico 7 — Adoção e riscos da IA agêntica no mundo e uso de IA pelas empresas brasileiras. Fontes: Gartner, press release de 25/06/2025 e Hype Cycle for Agentic AI 2026; Celonis, 2026 Process Optimization Report; Cetic.br, TIC Empresas 2025.

A adoção ainda é inicial. Segundo a pesquisa do Gartner com executivos de tecnologia para 2026, só 17% das organizações já implantaram agentes de IA, e mais de 60% esperam fazê-lo em dois anos. No Brasil, 17% das empresas com dez ou mais pessoas usaram alguma IA em 2025, contra 13% no ano anterior, segundo a pesquisa TIC Empresas do Cetic.br. Entre as que usam, 68% aplicam a IA justamente na automação de processos e fluxos de trabalho.

A Celonis, que vende mineração de processos — e, portanto, tem interesse no argumento —, ouviu 1.649 executivos de grandes empresas no mundo. Dos entrevistados, 76% disseram que os processos atuais atrasam a empresa, e 82% acham que a IA não dará retorno se não entender como o negócio funciona. É a tese de Hammer, 36 anos depois, dita pelos próprios compradores.

O agente de IA tende a ser mais tolerante que o robô de RPA: não quebra porque um botão mudou de lugar. Isso é uma vantagem técnica e um risco gerencial.

Um robô frágil denuncia o processo ruim toda vez que para. Um agente robusto o executa sem reclamar, e o processo ruim fica invisível.

Antes do robô, quatro perguntas

O método que usamos na Vector para decidir o que automatizar cabe em quatro perguntas, feitas nesta ordem.

Painel 08, antes do robô, quatro perguntas, nesta ordem. 1, eliminar: essa atividade precisa existir? Custo de sustentação nenhum. 2, simplificar: padronizar formatos, fechar opções e cortar aprovações; custo baixo. 3, integrar: o sistema de origem resolve, com API, ERP, DDA ou arquivo de retorno? Custo baixo. 4, automatizar: só então robô ou agente, com dono, indicador e data de revisão; custo contínuo. O robô mais barato é o que não precisou ser construído.

Gráfico 8 — A ordem das decisões antes de automatizar uma atividade: eliminar, simplificar, integrar e, só então, automatizar. Fonte: elaboração Vector Consulting.

1. Essa atividade precisa existir? Se ninguém usa o resultado, ou se ela corrige um erro que poderia ser evitado na origem, elimine. É o ganho mais barato e o único que não gera custo de sustentação.

2. Ela pode ser mais simples? Padronize formatos, feche listas de opções, corte aprovações que nunca reprovam e trate as exceções como exceções. Processo padronizado gera robô simples; processo sem padrão gera robô caro.

3. O sistema de origem resolve? Antes do robô, verifique integração nativa, API, recurso do ERP que ninguém ativou, DDA, arquivo de retorno bancário, serviço da registradora. A integração custa mais para construir e muito menos para manter.

4. Só então: robô ou agente. E com três condições — um dono na área de negócio, um indicador de resultado medido antes e depois, e uma data de revisão. Robô sem data de revisão vira sistema legado sem ninguém perceber.

A escolha do produto vem depois disso tudo, não antes. Com o processo desenhado, fica claro se o problema pede um robô de tela, um orquestrador de processos, uma integração ou um agente de IA — e fica mais difícil comprar um pelo preço do outro.

Nos próximos 90 dias

  1. Liste os robôs em produção e, para cada um, responda às três primeiras perguntas. Robôs que caem no primeiro caso devem ser desligados junto com a atividade.
  2. Para cada robô que faz ponte entre sistemas, registre qual integração o substituiria e quanto ela custaria. É o seu passivo de automação.
  3. Meça a sustentação: horas de correção de robôs por mês e número de paradas. Se ninguém mede, ninguém sabe quanto o RPA custa de fato.
  4. Antes de aprovar um projeto de agente de IA, exija o desenho do processo que ele vai executar. Se o processo não está desenhado, o projeto ainda não está pronto.
  5. No agro, use as datas da NF-e do produtor, do registro de CPR e do EUDR como gatilho para redesenhar o processo documental, não para multiplicar robôs.

Em 2021, a pergunta que não podia calar era se a empresa estava automatizando uma grande ineficiência. Em 2026, com robôs mais baratos e agentes mais capazes, ela ficou mais urgente, porque errar ficou mais rápido.

O robô mais barato é o que não precisou ser construído.

Fontes
  • Automation Anywhere. Cargill saves $19M during their five year automation journey (estudo de caso), jul/2023.
  • Baguete. “UISA faz RPA com AutomationEdge”, 14/10/2021.
  • Celonis. 2026 Process Optimization Report, press release de 04/02/2026.
  • Cetic.br/NIC.br. TIC Empresas 2025, release de 12/06/2026 e tabela H9A.
  • CMN/Banco Central. Resolução CMN 4.870/2020, na redação da Resolução CMN 4.927/2021.
  • Comissão Europeia. Relatório COM(2026) 191 sobre o Regulamento (UE) 2023/1115 (EUDR), 04/05/2026.
  • CONFAZ. Ajuste SINIEF 27/24, de 06/12/2024.
  • Dataside. Caso Coopercitrus (estudo de caso).
  • Deloitte. The robots are ready. Are you? — pesquisa global de RPA, 2017.
  • Deloitte. Automation with intelligence, edições de 2020 (25/11/2020) e 2022 (30/06/2022).
  • EY. Get ready for robots, citado por Pega, “3 critical mistakes in RPA and how to avoid them”, 22/08/2019.
  • Forrester. The RPA Market Will Grow To $22 Billion By 2025, 22/02/2022, citado por iTnews (02/03/2022) e TechCrunch (09/03/2022).
  • Gartner. Press release de 21/09/2020 sobre a receita de software de RPA.
  • Gartner. Market Share Analysis: Robotic Process Automation, Worldwide, 2023 (24/07/2024) e 2024 (13/08/2025).
  • Gartner. Press release de 25/06/2025 sobre cancelamento de projetos de IA agêntica.
  • Gartner. Hype Cycle for Agentic AI, 2026 (15/04/2026).
  • Hammer, Michael. “Reengineering Work: Don’t Automate, Obliterate”. Harvard Business Review, jul–ago/1990.
  • HFS Research. “RPA is dead. Long live Integrated Automation Platforms”, 15/04/2019.
  • IBEF-SP. Relato do webinar UiPath/IBEF-SP de 29/04/2020 (caso Sicredi).
  • IBM. Estudo de caso Sicoob, dez/2021.
  • Inforchannel. “Usina Coruripe automatiza processos de produção e transporte de cana-de-açúcar com RPA”, 15/01/2026; Visão Agro, 15/01/2026.
  • JornalCana. “Copersucar multiplica sua eficiência fiscal no porto de Santos”, 21/02/2022.
  • MAPA. Boletim de Finanças Privadas do Agro, jul/2026.
  • Pega. Press release de 10/09/2019 sobre pesquisa de RPA com 509 decisores.
  • Sistema OCB. AnuárioCoop 2026, ramo agropecuário.