O Brasil deve fechar o ciclo 2025/26 com 361,7 milhões de toneladas de grãos. Tirar essa produção da fazenda custa cada vez mais caro — e boa parte do problema não está no asfalto, está na sala de reunião.
Em janeiro deste ano, carregar uma tonelada de soja de Sorriso (MT) até Miritituba custava R$ 277,43. Poucas semanas depois, com os pátios congestionados, a mesma rota era negociada a R$ 330. Mesma carga, mesma estrada, mesmo caminhão. O que mudou foi o calendário — e o fato de que praticamente todo mundo decidiu escoar ao mesmo tempo.
Quem já tentou fechar frete na terceira semana de fevereiro conhece a cena. O produtor liga para a transportadora, a transportadora liga para o agregado, o agregado diz que já está carregando para outro, e o preço sobe enquanto a conversa acontece. Em Mato Grosso, os fretes com origem no estado subiram 62% entre a semana encerrada em 12 de janeiro e a semana de 23 de fevereiro. No país como um todo, as altas médias ficaram entre 5% e 15%, com picos acima de 50% nas regiões produtoras.
Todo ano é assim. E todo ano o setor trata isso como se fosse uma surpresa.

Frete rodoviário de soja, janeiro de 2026. Fontes: SIFRECA/ESALQ-LOG (USP) e Notícias Agrícolas.
O que é, de fato, a cadeia logística do agro
Quando um diretor fala em “logística”, normalmente está pensando em caminhão. A cadeia é bem maior do que isso, e é justamente nas juntas entre um elo e outro que o dinheiro desaparece.
Na prática, o grão percorre seis estágios até virar receita:
- Lavoura → unidade de recebimento. Transporte rural, em geral sobre estrada não pavimentada, muitas vezes com frota própria ou terceiros locais sem contrato formal.
- Recebimento e pré-limpeza. Balança, classificação, secagem, aeração. É aqui que se define se o grão vai poder esperar preço ou vai ter que sair correndo.
- Armazenagem. Silo próprio, armazém de cooperativa, armazém de trading — ou, quando falta tudo isso, o caminhão parado na fila servindo de silo improvisado.
- Transbordo. Armazém para fábrica, rodovia para ferrovia ou hidrovia, nos terminais do Arco Norte, em Rondonópolis, nos terminais do Tietê-Paraná.
- Corredor de exportação. Ferrovia, hidrovia ou os 2 mil quilômetros de asfalto que ainda ligam o Centro-Oeste aos portos do Sul.
- Porto. Fila de navio, janela de embarque, demurrage e a pressa de última hora que encarece tudo.
Cada estágio tem dono diferente, sistema diferente e indicador diferente. O produtor mede saca colhida. A transportadora mede viagem faturada. O armazém mede tonelada movimentada. O terminal mede prancha embarcada. Ninguém mede a coisa inteira.
É por isso que o custo logístico brasileiro consome 15,5% do PIB, segundo o estudo anual do ILOS. Para efeito de comparação, esse mesmo indicador era de 10,4% em 2014. Em uma década, a logística ficou cinco pontos percentuais do PIB mais cara — e não foi por falta de aviso.

Custo logístico como percentual do PIB. Fonte: ILOS — “Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras” (2025).
Como o setor opera hoje — e por que isso sai caro
Se você entrar em dez operações logísticas do agro brasileiro, vai encontrar mais ou menos o mesmo conjunto de práticas.
Frete fechado no spot, no calor da hora. A maior parte do volume é contratada semana a semana, em plena alta sazonal, sem contrato de longo prazo e sem compromisso de capacidade. Compra-se caro porque se compra tarde.
Planilha como sistema de gestão. Programação de cargas em Excel, confirmação por WhatsApp, canhoto em papel. Funciona — até o dia em que o responsável tira férias.
Sistemas que não conversam. Boa parte das empresas já tem ERP, muitas têm TMS, algumas têm WMS e telemetria. O gargalo migrou: hoje o problema não é adotar tecnologia, é a governança e a integração dos dados que os sistemas já instalados produzem. Sem isso, cada relatório mostra um número diferente e ninguém confia em nenhum.
Terceirização sem gestão. Contratar transportador autônomo não é problema. Contratar sem medir desempenho, sem histórico de pontualidade, sem controle de avaria e sem plano B — isso é.
Decisão por urgência. A pauta da reunião de segunda-feira é o caminhão que quebrou no sábado. A pauta do mês que vem é o caminhão que vai quebrar.
O resultado aparece na conta. Perdas físicas de grãos ao longo da cadeia chegam a 1,17% da produção de soja e 1,27% do milho — o equivalente a R$ 3,19 bilhões e R$ 1,31 bilhão em um único ano, conforme estudo da Conab. A armazenagem responde por 21,67% dessas perdas e o transporte rodoviário unimodal por 13,31%. Não é fruto do acaso: é o preço de operar no improviso.
Planejamento: o que existe e o que deveria existir
O que a maioria chama de planejamento logístico é, na verdade, programação. Programação é decidir quais caminhões saem amanhã. Planejamento é decidir, em setembro, quanto de capacidade a empresa terá em março.
Quem planeja compra capacidade na entressafra, quando o mercado está frouxo. Quem programa compra no pico, junto com todo mundo.
| Horizonte | Pergunta que responde | Quem decide |
|---|---|---|
| Estratégico 12–36 meses | Onde construir armazém? Qual corredor priorizar? Frota própria ou terceirizada? | Diretoria |
| Tático 3–12 meses | Quanto contratar de frete no ano? Qual o mix entre spot e contrato? Qual a curva de escoamento mês a mês? | Gerência |
| Operacional 1–30 dias | Quais cargas, quais rotas, quais janelas, quais motoristas? | Coordenação |
Na prática, quase todas as empresas fazem bem o terceiro nível, razoavelmente o primeiro — porque envolve CAPEX e passa pelo conselho — e simplesmente não fazem o segundo. O tático é o elo perdido, e é exatamente onde a margem mora.
O que deveria existir e raramente existe: um plano de escoamento anual, revisado mensalmente, que amarre estimativa de produção, capacidade de armazenagem própria e de terceiros, contratos de frete, janelas portuárias e curva de preço. Isso é S&OP aplicado ao agro. Não é sofisticado, não exige software caro e cabe em uma reunião mensal de duas horas. Falta é disciplina para fazer.Os gargalos físicos
Armazenagem: o gargalo que não se vê do escritório
Aqui está o número mais desconfortável do setor. A capacidade estática de armazenagem do Brasil gira em torno de 210 milhões de toneladas. A safra 2025/26 deve alcançar 361,7 milhões. O déficit chegou a 134,1 milhões de toneladas — o país consegue guardar cerca de 61,7% do que colhe.

Produção de grãos e capacidade estática de armazenagem. Fonte: Conab — Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos (7º levantamento, set/2026) e dados de armazenagem.
A capacidade cresceu 1,1% no último levantamento. A produção cresceu 2,6%. O buraco aumenta todo ano, mesmo com investimento acontecendo. Em algumas regiões o quadro é pior: no Matopiba, o déficit chega a 71% da capacidade estática — cerca de 12 milhões de toneladas esperando lugar a cada safra.
O que isso significa na operação, traduzido:
- Quem não tem silo, vende na colheita. E na colheita o preço é o pior do ano.
- O caminhão vira silo. Frota parada em fila é capital imobilizado e diária paga sem transporte acontecendo.
- A janela de secagem vira gargalo. Grão úmido não espera. Ou seca, ou perde.
- O frete sobe duas vezes. Uma pela demanda, outra pela ineficiência do ciclo de carga e descarga.
Armazém próprio não é a resposta para todo mundo — é um ativo caro, de retorno longo, que só faz sentido com escala e giro. Mas a decisão precisa ser tomada com número na mesa, comparando o custo de capital do silo contra o desconto de colheita, o custo de armazenagem de terceiros e o frete evitado. Na maioria das empresas essa conta nunca foi feita de forma estruturada. É intuição contra um investimento de milhões.
A safra manda no calendário — e no preço
O agro tem uma característica que nenhum outro setor logístico enfrenta com a mesma intensidade: a demanda não se distribui, ela se concentra. Entre fevereiro e março, a colheita da soja joga dezenas de milhões de toneladas na estrada ao mesmo tempo. Depois vem a safrinha de milho. Depois, um vale.
A consequência é uma curva de preço que todo mundo conhece e quase ninguém usa a favor:
- Cotações máximas em janeiro e fevereiro, sustentadas até março.
- Altas de 5% a 15% na média nacional, com picos acima de 50% nas regiões produtoras.
- E — detalhe que mudou nos últimos anos — a entressafra já não devolve o preço ao patamar anterior. O piso subiu.
Chuva atrasa colheita, colheita atrasada comprime o escoamento em menos semanas, e a compressão encarece tudo. É um sistema que amplifica qualquer desvio.
Quem trata sazonalidade como risco gerenciável faz três coisas: contrata parte da capacidade fora do pico, escalona a saída da fazenda usando armazenagem como amortecedor e negocia contratos com volume mínimo garantido em troca de preço. Quem trata como fatalidade paga o spot de fevereiro, reclama e repete no ano seguinte.
O que a operação registra — e o que ela deixa de registrar
Pergunte a um gerente de logística quantas viagens a frota fez no mês passado. Ele responde na hora. Pergunte quantas horas o caminhão ficou parado em fila esperando descarga, e o que causou cada parada. O silêncio costuma ser longo.
Essa é a diferença entre registro contábil e registro gerencial. A maioria das operações registra bem o que precisa para faturar e para o fisco. Registra mal — ou não registra — o que precisaria para gerir.
| O que quase toda operação já registra | O que falta registrar (e muda a gestão) |
|---|---|
| Nota fiscal, CT-e, MDF-e | Tempo de fila na origem e no destino, com motivo |
| Quilometragem total | Km rodado vazio vs. carregado, por rota |
| Volume faturado por viagem | Ocupação real do veículo (peso e cubagem) |
| Gasto total com combustível | Consumo por veículo, por rota e por motorista (km/l) |
| Ordem de serviço de oficina | Motivo da parada, componente, preventiva ou corretiva, tempo de indisponibilidade |
| Compra de pneus | Vida do pneu por posição, km acumulado, número de recapagens, CPK |
| Ocorrência de avaria | Causa raiz da avaria e responsável pelo elo |
| Entrega realizada | Aderência à janela programada (OTIF) |
Repare no padrão: a coluna da esquerda é o que o sistema exige. A da direita é o que o negócio precisa. Nenhum dos itens da direita é difícil de coletar — a maioria já está em telemetria, balança, portaria ou ordem de serviço. Está lá, solta, sem ninguém transformar em decisão.
Um campo de motivo bem preenchido, com lista fechada e revisão semanal, produz mais gestão em noventa dias do que a maioria dos projetos de BI produz em um ano.
Combustível: 35% do custo e nenhuma previsibilidade
O diesel responde, em média, por 35% do custo operacional das transportadoras brasileiras, segundo a NTC&Logística. É o maior item isolado da estrutura — e o menos controlável.
O ano de 2026 ilustra bem o problema. O S10 saiu de R$ 5,78 por litro em janeiro para R$ 6,45 em agosto, alta acumulada de 11,6%. No caminho, bateu R$ 7,13 em abril, recuou por quatro meses seguidos e voltou a subir em setembro, retornando ao patamar de R$ 7,13. Não é uma tendência, é uma serra.

Diesel S10, preço médio nacional em 2026. Fontes: levantamento TruckPag sobre dados da ANP; NTC&Logística.
Para quem fecha frete com preço fixo por seis meses, essa oscilação é margem evaporando sem que ninguém perceba, porque o efeito aparece diluído em centenas de viagens. Três medidas resolvem boa parte do problema, e nenhuma é complexa.
1. Cláusula de reajuste automática. Contratos de frete atrelados a um índice público de diesel, com gatilho de revisão a cada variação acima de um percentual definido. Isso transfere o risco de preço para quem consegue precificá-lo, em vez de deixá-lo parado no meio da relação comercial.
2. Gestão de consumo, não de preço. A empresa não controla o preço da bomba, mas controla o km/l. Diferenças de 15% a 20% no consumo entre motoristas da mesma frota, no mesmo veículo e na mesma rota, são comuns e raramente medidas. Telemetria com acompanhamento de condução costuma pagar o próprio investimento no primeiro ano.
3. Compra estruturada. Contrato de abastecimento com volume, base própria quando a escala justifica e acompanhamento diário do diferencial entre o preço pago e a referência de mercado.
O ponto central: combustível não é um custo a ser lamentado. É uma variável a ser gerida, com indicador semanal e dono.
Elétricos: 0,4% da frota e um começo que já é real
Caminhão elétrico ainda é exceção no Brasil — representa cerca de 0,4% da frota. Mas parou de ser assunto de feira e virou decisão de compra.
O sinal mais claro veio de dentro do agro. A Transportadora Navarini, de Sorriso (MT), comprou 251 caminhões elétricos para o escoamento de safra — a maior aquisição de pesados elétricos rodoviários já registrada na América Latina. Uma fabricante chinesa anunciou plano de vender R$ 500 milhões em caminhões elétricos para o agronegócio brasileiro. Marcas novas estão lançando modelos de distribuição urbana e testando cavalos mecânicos elétricos no mercado nacional.
Onde a eletrificação faz sentido primeiro é bastante previsível: operação cativa, trajeto conhecido, quilometragem alta e recarga na base. Isso descreve muito bem a rota interna de fazenda, o transbordo entre unidade de recebimento e armazém, a distribuição regional de insumos e o ciclo curto de terminal. Descreve muito mal o Sorriso–Santos.
- Decida por TCO, não por preço de aquisição. O elétrico custa mais na compra e menos por quilômetro. Abaixo de certo volume de km/ano, não fecha.
- Comece por um ciclo cativo e mensurável. Um lote piloto em rota interna dá dado real de consumo, disponibilidade e manutenção em doze meses.
- Trate a recarga como ativo logístico. Potência disponível no pátio, tempo de recarga e janela operacional são restrições de programação, não detalhe de engenharia elétrica.
- Não espere a infraestrutura pública. No agro, a vantagem é justamente ter pátio próprio e energia contratada.
A visão realista de futuro: nos próximos cinco anos, o elétrico domina o ciclo curto e cativo; o diesel segue no longo curso; e o ganho maior, no meio do caminho, vem de gestão de consumo e de rota — não de troca de motorização.
Manutenção: o custo que só aparece quando o caminhão para
Manutenção corretiva pode elevar o custo de manutenção em até 30% em comparação com a preventiva. E esse é só o custo visível. O invisível é o caminhão parado no pico da safra, quando cada dia de indisponibilidade vale o frete mais caro do ano.
A referência de mercado para uma operação saudável é conhecida: a corretiva deveria ficar em até 25% do custo total de manutenção, com preventiva e preditiva ocupando o restante. Frotas com manutenção em dia apresentam redução de 30% a 40% no custo total de reparo ao longo da vida útil do veículo.
O que se vê no campo é quase o inverso. Manutenção é tratada como conserto, não como programa. Falta plano por quilometragem, falta histórico por componente, falta análise de reincidência. Quando existe plano, ele é ignorado na safra — porque “não dá para parar caminhão agora”. Aí o caminhão para sozinho, na estrada, no pior momento possível.
Quatro indicadores bastam para virar esse jogo:
- Disponibilidade da frota (% do tempo apto a rodar), medida semanalmente.
- Relação preventiva/corretiva, em valor e em número de ordens.
- MTBF por componente — o que quebra, com que frequência, em quais veículos.
- Custo de manutenção por quilômetro, por veículo e por idade de frota.
Nenhum deles exige sistema novo. Todos exigem que a ordem de serviço seja preenchida com motivo e componente. Voltamos ao ponto do registro.
Pneus: o segundo maior custo, gerido como material de consumo
Depois do combustível, pneu é o maior gasto do frotista. E é, disparado, o item mais mal gerido da operação — porque chega como compra, é lançado como despesa e some do controle no momento em que é montado no veículo.
O indicador que resolve isso tem nome e é simples: CPK, custo por quilômetro. Divide-se o custo total do pneu ao longo de toda a vida útil — valor do pneu novo, mais cada recapagem, mais montagem, alinhamento, balanceamento e reparos — pela quilometragem total percorrida em todas essas vidas.
A recapagem deixa de ser assunto de preço e vira assunto de carcaça. Uma recapagem custa cerca de 50% menos que um pneu novo. Em exemplos de mercado, o CPK cai de R$ 0,020 para R$ 0,014 — redução da ordem de 38%. Mas isso só se sustenta se a carcaça for preservada, o que depende de calibragem, alinhamento e retirada no momento certo. Rodar o pneu “até o fim” destrói a carcaça e elimina a economia.
O pneu ganha identidade. Cada pneu passa a ter número, posição, histórico de rodízio e quilometragem própria. Sem isso, não existe CPK — existe média, e média não gerencia nada.
Olhando para frente, dois movimentos pressionam esse custo: a alta dos insumos importados, que segue o câmbio, e o aumento da carga por eixo em combinações maiores, que acelera o desgaste. A boa notícia é que o CPK é um dos poucos indicadores logísticos em que a melhora depende quase inteiramente de disciplina interna. Custa pouco e responde rápido.As pessoas
Formação: falta gente, e falta o tipo certo de gente
O Brasil convive com um déficit estimado de 120 mil motoristas profissionais. Em dez anos, o país perdeu cerca de 1,2 milhão de condutores da atividade. E 88,9% dos operadores logísticos apontam a falta de mão de obra qualificada como a principal dificuldade para manter ou ampliar o quadro de motoristas.
Repare na palavra: qualificada. O problema não é apenas quantidade. É que o perfil exigido mudou e a formação não acompanhou. A frota de hoje tem telemetria, câmbio automatizado, gestão de consumo embarcada e exigências de documentação eletrônica. O armazém tem endereçamento e inventário cíclico. A programação de cargas é feita com roteirizador. Nada disso se aprende no mesmo treinamento que se dava há quinze anos.
| Prioridade | Área de formação a financiar | Por quê |
|---|---|---|
| 1 | Motorista profissional — condução econômica, telemetria, carga e descarga, checklist, segurança | Sem melhorar condição de trabalho e previsibilidade de escala, treinar é encher balde furado |
| 2 | Planejamento e programação logística — demanda, capacidade, S&OP, contrato de frete | É o elo tático que falta; maior alavancagem disponível hoje |
| 3 | Análise de dados aplicada à operação | Ocupa a lacuna entre “temos os dados” e “usamos os dados” |
| 4 | Manutenção e gestão de ativos — planejador, diagnóstico eletrônico, gestão de pneus | Escassez crônica e retorno imediato em disponibilidade de frota |
| 5 | Armazenagem de grãos — secagem, aeração, controle de qualidade | Perdas de armazenagem são formação técnica, não sorte |
| 6 | Compras e contratos de frete | Hoje o frete é negociado por quem tem telefone, não por quem tem método |
Um programa de formação sério em uma empresa de porte médio não custa mais que dois caminhões. E rende mais.
O gestor logístico brasileiro — e o que precisa mudar
Esta é a parte incômoda, mas é onde está o maior retorno disponível.
O perfil predominante do gestor logístico no agro brasileiro é o do profissional que cresceu na operação. Conhece a estrada, conhece o motorista, resolve problema com um telefonema e tem uma agilidade que nenhum sistema substitui. É uma qualidade real. O problema é que essa mesma qualidade virou o teto da função.
Gestão por urgência. O dia do gestor é definido pelo que quebrou. Ele é recompensado por apagar incêndio — e, como é bom nisso, o incêndio nunca deixa de acontecer.
Indicadores frouxos. Existe painel, existe relatório. Mas os indicadores medem volume (quantas viagens, quantas toneladas) em vez de medir desempenho (custo por tonelada-quilômetro, OTIF, disponibilidade, ocupação, km vazio). Volume responde “o quanto fizemos”. Desempenho responde “o quanto desperdiçamos”. São perguntas diferentes.
Ausência de horizonte. Pergunte a um gestor logístico do agro qual é a capacidade contratada dele para março do ano que vem. A resposta honesta, na maioria dos casos, é que ninguém perguntou isso antes.
Enquanto o diretor cobrar o gestor pela crise resolvida na sexta-feira, e não pela crise que não aconteceu, o ciclo continua.
Nada disso é falha de caráter. É consequência direta de como a função foi desenhada: cobra-se resultado diário de um cargo que precisaria entregar resultado anual. Mudar isso depende da diretoria — colocar planejamento na descrição do cargo, meta anual no bônus e indicador de desempenho, não de volume, no painel da reunião mensal.
Recomendações que cabem no orçamento atual
Nos próximos 90 dias
- Escolha cinco indicadores e só cinco: custo por tonelada transportada, disponibilidade de frota, km rodado vazio, aderência à janela programada (OTIF) e CPK de pneu. Publique semanalmente, sem exceção.
- Implante campo de motivo obrigatório, com lista fechada, em parada de veículo, fila e avaria. Revise os motivos toda sexta-feira, com o time inteiro na sala.
- Levante o custo real de armazenagem e compare com o desconto de venda na colheita. Se você nunca fez essa conta, ela vai surpreender.
- Faça o inventário de pneus da frota, com número, posição e quilometragem. É trabalhoso uma vez e barato depois.
Nos próximos 12 meses
- Construa o plano tático de escoamento — mês a mês, 12 meses à frente — e revise mensalmente com comercial, produção e logística na mesma mesa.
- Migre parte do frete do spot para contrato com cláusula de reajuste indexada ao diesel e volume mínimo garantido.
- Transforme manutenção em programa: plano por quilometragem, meta de relação preventiva/corretiva e disponibilidade acompanhada semanalmente.
- Coloque uma pessoa dedicada a planejamento logístico, não acumulada com operação. Se a empresa não comporta um cargo, comporta metade de um — mas o horizonte precisa ter dono.
- Rode um piloto de eletrificação em ciclo cativo, com medição séria de TCO. Doze meses de dado próprio valem mais que qualquer estudo de fabricante.
O recado
O Brasil vai colher mais no ano que vem. Isso está praticamente contratado — a área plantada cresceu 1,7% e a produtividade segue subindo. O que não está contratado é a capacidade de escoar essa produção sem entregar margem para a estrada.
A infraestrutura pública vai melhorar devagar, como sempre melhorou. Mas a parte da conta que depende de gestão — planejamento tático, registro de operação, manutenção programada, gestão de pneu e de consumo, formação de gente — está inteira nas mãos das empresas, hoje, sem esperar leilão de concessão nem orçamento da União.
O gargalo mais caro do agro brasileiro não fica em Miritituba nem em Paranaguá. Fica na diferença entre o que a operação sabe e o que ela registra.
Fontes
- ILOS — Instituto de Logística e Supply Chain. Custos Logísticos e o Impacto nas Empresas Brasileiras, 2025. Custo logístico em 15,5% do PIB; transporte 8,5%, estoques 5,3%, armazenagem 1,0%, administrativo 0,6%. ilos.com.br
- Conab. Acompanhamento da Safra Brasileira de Grãos, 7º levantamento, set/2026. Safra 2025/26 de 361,7 Mt; área de 83,5 milhões de hectares. gov.br/conab
- Conab. Capacidade estática de armazenagem (~210 Mt), déficit de 134,1 Mt e déficit regional no Matopiba. conab.gov.br
- Conab. Estudo sobre perdas na logística de grãos: armazenagem 21,67% e rodoviário unimodal 13,31% das perdas; 1,17% da soja e 1,27% do milho. conab.gov.br
- SIFRECA / ESALQ-LOG (USP). Indicadores de frete rodoviário de soja e milho, jan/2026. sifreca.esalq.usp.br
- Notícias Agrícolas. Frete MT–Miritituba de R$ 260 para R$ 330/t e alta de 62% nos fretes com origem em MT entre jan e fev/2026. noticiasagricolas.com.br
- ANP / TruckPag. Diesel S10 em 2026: R$ 5,78 (jan), R$ 7,13 (abr e set), R$ 6,45 (ago); alta de 11,6% até agosto. cenarioenergia.com.br
- NTC&Logística. Participação do diesel no custo operacional das transportadoras (≈35%). portalntc.org.br
- Mundo Logística. Caminhões elétricos representam 0,4% da frota brasileira. mundologistica.com.br
- Mecânica Online. Aquisição de 251 caminhões elétricos pela Transportadora Navarini, em Sorriso (MT). mecanicaonline.com.br
- Geotab / ANFAVEA. Manutenção corretiva até 30% mais cara; redução de 30% a 40% no custo total de reparo com manutenção em dia. geotab.com
- Prolog / Goodyear. Metodologia de CPK e economia com recapagem (≈38% em exemplo de mercado). prologapp.com
- Tecnologística / CNTA. Déficit de 120 mil motoristas; perda de 1,2 milhão de condutores em dez anos. tecnologistica.com.br
- Mundo Logística. 88,9% dos operadores apontam falta de mão de obra qualificada como principal dificuldade para contratar motoristas. mundologistica.com.br
- Transporte Moderno. Governança e integração de dados como principal gargalo da digitalização logística. transportemoderno.com.br
Dados consultados em setembro de 2026. Valores de frete e combustível variam por rota, prazo e volume contratado.

